Ana Hatherly. 'A NEO-PENÉLOPE' .é apresentado terça-feira (18.00) na Universidade Aberta no encerramento do mestrado de estudos de temática feminina, leccionado pela poeta-pintora. A obra celebra meio século de actividade literária.Comemora, em 2008, 50 anos de actividade literária com a publicação de A NEO-PENÉLOPE pela &etc. Meio século depois, a sua obra continua a ser marginal e insituável. Quer fazer um balanço?.Cinquenta anos é muito tempo. Aconteceram muitas coisas na minha vida, no nosso país e no mundo. O meu trabalho foi muito intenso e múltiplo. Abarca três vertentes: a literária, a artística e a pedagógica. No que diz respeito às duas primeiras, escolhi o caminho da independência sem me preocupar com êxitos fáceis. Quanto ao ensino universitário, decorreu da minha investigação da cultura do período Barroco português, que foi e continua a ser um trabalho de eleição. .Quem é esta Neo-Penélope que "Não tece a tela/Não fia o fio/Não espera por nenhum Ulisses"? .É uma desconstrução do mito de uma passividade feminina que (só ?) o homem dinamiza. A Neo-Penélope não espera por nenhum herói - Ulisses, Cavaleiro Andante, Príncipe Encantado - nem considera obrigatório ser esposa de ninguém. Mas isso não quer dizer que tenha desistido de amar..O seu desenho, que ilustra a capa, contém a desconstrução e a fragmentação, qualquer coisa das damas japonesas e do "seu secular sequestro", o erotismo, algo da arte funerária cicládica. A figura, andrógina, não tem olhos nem boca. Fala mudo?.Exactamente. É uma postura caracteristicamente feminina..Traz dentro de si a sátira, raríssima na poesia feminina, produto também da sua ligação ao Barroco, no qual se especializou....A sátira, um género antiquíssimo, assim como a ironia - afiado gume da crítica elegante - são recursos estilísticos que eu aprecio muito e pratiquei largamente na minha escrita criativa, de que são exemplo, entre outros, O Mestre (1963), Anagramático (1965-1970) e as 463 Tisanas (1969-2006). Na sua forma nobre, são raros na literatura portuguesa e, de facto, quase inexistentes na literatura feminina. É mais um dos aspectos em que a minha obra é uma excepção..Numa linha de coerência com toda a sua obra, A NEO-PENÉLOPE é, de algum modo, uma partitura, com três andamentos. No primeiro ciclo de poemas, faz o retrato do temperamento feminino, da subtileza à audácia, da paixão à crueldade, do corpo-alma à sombra-luz. Que levou a fazê-lo? .Tem, de facto, essa semelhança estrutural. As três partes em que está composto o livro correspondem ao que poderá descrever-se como três andamentos de uma partitura musical. Como já foi observado por alguns estudiosos da minha obra, o pensamento musical tem nela uma presença estruturante, vejam-se por exemplo as 31 Variações sobre a Leonor de Camões. Em NEO-PENÉLOPE esse aspecto é também muito claro. Utilizei-o porque o considerei funcional. .Partindo da fábula de Alice - a que não são alheios os estudos psicanalíticos -, faz, no segundo andamento (Alice no país dos anões), um mínimo tratado poético sobre a visão masculina tradicional sobre a inocência da mulher. Alice como paradigma. Que país dos anões é este de que fala?.De facto, a minha abordagem actual da fábula de Alice tem muito a ver com os estudos críticos e psicanalíticos feitos em Inglaterra na década de 70, que eu agora reli, nos quais é analisada a vertente lúbrica que nela se pode encontrar, como aliás em outros exemplos de literatura infantil tradicional. Na NEO-PENÉLOPE, Alice surge como paradigma de uma certa atitude masculina em relação à mulher, que busca na imagem da sua inocência o reforço da sua prepotência. Quanto ao país dos anões, é preciso lembrar que O País das Maravilhas em que Alice é lançada é um país do absurdo, um país do nonsense em que ela sofre e até chora um lago de lágrimas..Alice não quer pertencer ao sonho de outra pessoa, não deseja ser majorette, resiste dolorosamente, está cansada dos "petites apetites" dos malévolos anões, dos pedófilos disfarçados. Quem é esta menina-mulher?.É a Neo-Penélope. É a criança que acordou. A criança que se tornou adulta e não quer pertencer à coutada do homem insensível onde apascenta as coelhinhas que colecciona. Também não quer ser nem Menina-tonta, nem Lolita, nem Barby ..O terceiro andamento (Epigramas e sátiras) dir-se-ia uma jocosa crítica social na qual até subverte mitos como o de Ícaro? Concorda?.Toda a sátira implica crítica a determinados aspectos da sociedade contemporânea. Abordo, neste livro, algumas das suas facetas violentas. Quanto a Ícaro, transformando-o em trapezista, salvo-o de afogamento, mas coloco-o no arriscado baloiço do equilíbrio instável?.A NEO-PENÉLOPE move-se no domínio da contemporaneidade, tal como demonstram Carta de Amor em Metáfora de Automóvel ou Carta de Amor Informático. Sempre a transgredir?.Na Carta de Amor em Metáfora de Automóvel (que neste caso é a Musa da História), transformo o modelo tradicional da "queixa de amor" numa criação neobarroca contemporânea. Na Carta de Amor Informático, o vocabulário usual da queixa de amor é violentamente transposto para um léxico típico do século XXI..É como se, neste livro, na reformulação da tradição, se fizesse uma síntese de todas as suas preocupações: o desejo, o amor, a improbabilidade, o desaparecimento, a morte, a escrita, o fantasma, a transgressão. ANEO-PENÉLOPE é um labirinto em que nem a questão do Mestre fica de fora?.No conjunto das suas três partes A NEO- -PENÉLOPE compreende ou aflora todos esses aspectos. A imagem do labirinto, como metáfora do mundo ou metáfora do existir, esteve sempre no centro das minhas preocupações, reflectindo-se em todo o meu trabalho. Os estudos do Barroco que eu levei a cabo contribuíram para aprofundar essa incidência..Como se aterrássemos num jardim secreto, o do conhecimento, o do invisível?.O jardim secreto é uma encantadora metáfora de uma realidade terrível..É isso que fazem alguns grandes artistas: apropriam-se dos símbolos, dos mitos e sobre eles erguem a sua obra?.Sim, como já em outro lugar eu disse, o poeta, como emblema do criador, persegue todos os símbolos, todos os vestígios, ou seja, toda a memória que corre no seu sangue, e para além do espelho inventa o inaudito.. Ana Hatherly é como o gato de Cheschire? Desaparece, de súbito, mas deixa ficar atrás de si um sorriso? .Sou a gata.|